Existe movimento interrompido para o pai?


Existe o movimento interrompido para o pai?

Até dias atrás, ainda em mim, persistia a sensação de que, não, meu pai não fez taaannntttaaa falta assim. Era uma sensação que, em verdade, vinha de uma imagem fictícia. Talhada pela mágoa da minha mãe que diz ao parceiro - "Fico melhor sem você."

E na decisão de fazer o melhor que podia para os filhos, minha mãe seguiu resoluta em seu trabalho, não obstante, mais tarde optar pela minha adoção.

O que naquela época se forjou em mim? Nada. Não havia a pálida idéia de como fosse meu pai, nenhum desejo em saber como era e, por quê, por quê você não ficou?

Desde pequena, num contrato amoroso de sobrevivência, tomei a dor da minha mãe, e como se uma adulta fosse, me resignei, sem o saber, em não sentir para não doer.

Vivemos bem assim? Sim, muito bem, obrigada.

Pero que no, a vida tem um traçado fino e elegante. Alinhava situações que denunciam o que faz parte e não está ali.

Como se deram minhas relações posteriores?

Que desafios vividos em relacionamentos amorosos, de dependência e medo se mostraram?

Como uma carta descoberta na gaveta que revela um segredo, tomamos consciência, da trama emocional a que estávamos imersos. Dói, mas libera.

Dias atrás, numa Constelação Familiar, uma dessas cartas secretas se revelou pra mim.

Tomei contato com o trauma. O trauma da separação do meu pai.

Nem sabia que se tratava disso. Estava no modo sobrevivência.

Quando deparada com o representante do meu pai no campo, meu corpo apresentou espasmos intensos, um frio na barriga e medo, medo de criança.

Meu marido também estava representado no campo, e eu olhava pra ele, num pedido de socorro: - faça isso comigo! E a facilitadora diz apenas: - VOCÊ faz esse caminho até seu pai, agora VOCÊ pode. A criança não podia.

Fato se deu que todo aquele medo, se mostrou numa raiva, trazida com muito choro. Bati, dei murrinhos no pai representado no chão, empurrei, voltei minha cabeça contra seu peito e num alívio, senti um misto de saudade e lamentação: Por que pai, porquê?

Nas relações que se rompem precocemente há um lamento de algo que não prosseguiu, como teria sido?

Eu exuberei toda essa lamúria pelo meu corpo. O corpo sempre um fiel depositário das memórias de dor.

Quando me senti exaurida nessa catarse de emoções, a facilitadora disse: - Foi bem pouco tempo, e esse é o nosso destino pai. Assim é a nossa história. Agora posso me despedir de você, pai, finalmente.

Destino e despedida.

Tantas vezes, as despedidas se mostraram dolorosas demais, e eu não as concretizava, prolongando uma razão pra me manter aonde algo já não podia mais ser ou ficar.

Outras, vezes, antecipava a ruptura, pretendendo ser protagonista, ou ter controle pra não sofrer.

Sempre se tratou da despedida essencial. Da primeira. Do pai.

É... existe um movimento interrompido para o pai.

Tirar da lógica, abandonar as medidas do que foi certo, errado, justo ou injusto, deixar com os pais as decisões e as razões que tiveram. Não escolher um lado.

Deixar vir a dor, a lamentação, a raiva camuflada no jeito de pessoa boazinha. E, depois deixar ir.

Bora crescer, distanciando-se agora dos pais, por uma nova razão: a minha própria vida.

Só um adulto toma seu destino.

Só um adulto pode se despedir.

Algo retomou seu lugar em mim. Meu pai. Assim como é. Sem ficção. E isso me cura.

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Ps. Esta constelação ocorreu em uma das avaliações finais da pós graduação na Escola Hellinger.

Muito obrigada a meus colegas de grupo, a professora, e a Escola e antes a Bert Hellinger, por ter trazido pelos anos de postura fenomenológica diante do Campo das Constelações, poderosas compreensões das dinâmicas ocultas familiares.

Rita Paula Tyminski

Facilitadora em Constelações.

São Paulo

Londrina

Palhoça.

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