O emocionante filme Lion - reporta à minha própria história.

Fui ao cinema assistir Lion - o retorno pra casa. O tema havia naturalmente me chamado a atenção, pois como o garoto do filme, eu também havia sido adotada quando criança.

A história, que é real, se passa longe, na Índia, sob circunstâncias diferentes, contudo com uma enorme similitude de sentimentos e emoções com minha própria história.

Como o garoto, fui adotada em torno dos cinco anos, e minha companhia mais constante havia sido um irmão mais velho. A perda deste irmão, como para o menino do filme, deixou em mim a dor de uma ausência, muda, nunca mencionada na minha família adotiva.

Identificar no garoto os mesmos sentimentos, como uma imagem que se projetasse de mim mesma, provocou-me uma catarse: no desenrolar do filme, fui dragada para as minhas reminiscências, as minhas mais caras memórias.

Isso trouxe-me uma e ainda outra compreensão desde a alma.

Bert Hellinger, pai das Constelações afirma que a criança adotada mantém seu vínculo sistêmico com sua família de origem, com seus pais biológicos. Como assim?! A primeira vez que ouvi esta colocação, relutei em aceitar. Não havia lógica nisso.

Até que...

Em minha primeira constelação fui confrontada com minha mãe biológica, e revelou-se em mim um forte julgamento de que eu nunca faria o que ela fez : jamais daria um filho. Pretensão a minha... minha mãe havia feito o que fez POR AMOR. A única justificativa.

Aqui, não é o campo da lógica mas do Amor.

Absorvida na minha nova vida, minha nova família se tornou o meu maior bem, e minha referência, como se deu também com Saroo, o menino.

Até que....

Saroo, no filme, já adulto, durante um bate papo trivial entre amigos, sendo dois deles de origem indiana, vê-se completamente perturbado com perguntas em relação a sua família de origem na Índia, e inicia-se nele um conflito brutal entre sentimentos adormecidos que ressurgem, com lembranças entrecortadas, e a forte relação que tem com sua nova família.

Assim também comigo, uma crise de identidade me jogava de um lado a outro, O antigo vínculo me chamava, o primeiro.

Tantos anos depois havia em mim a reprovação de que eu não poderia retomar minha primeira família. Não estava autorizada. Era uma ideia perturbadora. Como se as duas partes desta história não pudessem se tocar.

No entanto, assim como minha mãe havia me dado por amor, era agora esse mesmo amor, que me pedia pra olhar para o passado.

Assim fiz, os procurei.

Minha mãe, já idosa, me abriu a porta de sua casa, como que recebendo um filho que regressa, de há muito tempo. Não houve afetação. Nem sequer podia se dizer que aquele encontro se havia pressentido. Olho para aquele irmão, a maior referência, e nossa... sou tomada de um imenso carinho, e isso é bom!

Estava lidando com este encontro com certo resguardo, e respeito, até que minha mãe me traz uma antiga foto, talvez a única que tivesse comigo, e nela sou pequena, de vestidinho e minha mãe, tão jovem, de joelhos me oferece uma garfada de bolo de festa. WOW!! Um dejavù, um túnel do tempo se abriu e eu estava lá inteira naquela cena, chegou a doer, mas foi reconfortante.

Duas famílias que se cruzaram, uma vai até onde pôde, e a outra prossegue daí... parceiras num destino em comum: o da criança.

Uma criança levada de um a outro sistema familiar, mantem-se inconscientemente vinculada ao primeiro. Uma afirmação bastante desafiante pra mim. Apenas os anos e o caminho do autoconhecimento puderam me trazer algumas compreensões.

Uma delas se deu um pouco antes de finalizar este artigo. Há anos me vejo adentrando no vício do café, onde não bastavam mais um ou dois por dia, e sim vários, numa necessidade crescente de sempre aceitar mais uma xícara.

Dias atrás , me coloquei o desafio de abandonar o vício, e venho enfrentando enxaquecas e insônias!! Contudo, num momento que estava sozinha, lendo um livro, me veio um lampejo, um insight, vejo claramente a imagem: a compulsão vinha saciar a carência pela falta da minha mãe biológica, E assim também havia feito antes, com o leite e a chupeta. Jamais teria antes aceitado essa evidência!

Mas agora fica claro, se eu me concilio com minha história do jeito que foi, assim como a recebi, sem tirar nada, com profunda gratidão com a primeira mãe e com a segunda mãe, eu me integro, eu me curo e não há polaridades, e isso me fortalece.

Essa é a minha identidade! A mesma sensação que Lion pôde ter no filme.

A adoção vista como estanque, empobrece a criança, porque ela se vê forçada a fazer uma escolha, ou a rejeitar a sua origem talvez até mesmo por instinto de sobrevivência. Contudo negar sua origem, perpetua um vácuo de identidade que pode trazer arrogância e raiva, sem se nomear a causa, que fica latente e oculta.

Muitos não sabem sua origem, e está tudo bem.

A família que adota pode "olhar" para a família de origem e agradecer a criança assim como ela veio, acolhendo em um lugar especial esta primeira família, sem disputa, sem recriminação. Afinal as duas famílias compartilham um destino em comum, o do filho.

E saber que, alguns desafios que o filho traga, talvez estejam vinculados ao seu sistema de origem, e não são sinal de má índole ou indolência.

Acolher crianças, sem necessariamente adotá-las, mantendo seu vínculo com sua família, pode ser também um ato amoroso, e digno para a criança.

Quanto mais aceitação da família que adota e dos pais que doam, mais livre a criança estará para ser ela mesma, assim, desse jeitinho.

A autora é formada em Direito - Universidade Estadual de Londrina

Facilitadora em Constelação Familiar em São Paulo/ capital e Londrina/Pr

Pós graduando em Constelações Familiares pela Hellinger Schulle

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